segunda-feira, 23 de maio de 2016

''Ele era tudo para mim'', diz mãe de vigilante morto por bala perdida em SP

MP denunciou PMs que ocultaram suposto disparo acidental na Zona Leste.
Irmão lembra que Alex era trabalhador e certinho: 'nunca bebia ou saía'.


A aposentada Francelina Veiga de Morais lembra todos os dias da morte do filho, o vigilante Alex de Morais, de 39 anos, atingido por uma bala perdida na cabeça durante a madrugada quando voltava do trabalho em Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo.
O crime ocorreu em 11 de outubro de 2015 e policiais militares que atenderam a ocorrência e registraram o caso como atropelamento. Imagens de câmeras de segurança e uma perícia nas armas levou a Justiça a decretar a prisão dos dois policiais. Eles foram acusados pelo  Ministério Público por homicídio duplamente qualificado (por meio que resultou em perigo comum e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima) e por fraude processual (já que tentaram esconder a causa da morte).

Segundo a promotoria, um dos PMs admitiu mais tarde ter realizado o disparo acidentalmente enquanto perseguiam uma moto. "O motorista da viatura confessou ter feito o disparo com uma pistola calibre 380, que é uma arma proibida. Policial militar não pode usar arma particular no patrulhamento. Ele é canhoto e disse que a arma estava presa ao colete e o tiro aconteceu quando tentou segurar a arma para que ela não caísse", afirmou em novembro o delegado responsável pelo caso, Luiz Eduardo Aguiar Maturano.
"Ele só queria saber de trabalhar e educar o filho dele, que tem 14 anos. Era o responsável pelo garoto, que agora faz tratamento psicológico", diz Aparecido.
Francelina conta que estava dormindo quando soube que o filho tinha sido atropelado. Ao chegar ao Hospital Santa Marcelina, para onde o jovem foi socorrido, ela ouviu do médico outra versão. "O médico falou comigo que meu filho não foi atropelado e, sim, baleado. Ele falou que não quebrou um dedinho dele, não tinha nada, mas tinha um buraco na cabeça dele."


Para a mãe, o filho era um "menino perfeito, do bem" e que não merecia o ocorrido. "Ele era tudo para mim, educado e um bom filho. Eu quero que quem matou meu filho pague por isso", afirmou ela


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A família diz que convive com a dor e com o medo e que um julgamento deve ser marcado em breve com os acusados da morte do vigilante.
O irmão de Alex, o desempregado Aparecido, diz que o irmão "era uma pessoa direita, que nunca se envolveu com nada errado, era trabalhador e nunca bebia ou saía".
Segundo ele, o sobrinho perdeu a mãe quando tinha 4 anos e era Alex quem cuidava do filho.
"Minha mãe vive nervosa, não consegue comer, não consegue dormir. Tem uma filmação (imagens) que mostram os PMs atirando de longe e meu irmão cai no chão. Todo mundo que estava perto viu isso e tentaram esconder. Eles não dispararam sem querer. Estavam correndo atrás de bandido e meu irmão, por azar, passou perto na hora. Não era para ele estar lá", diz Aparecido.
O caso ocorreu na Rua Edgar Pinto Cesar, por volta das 2h50, após a vítima seguir em direção a sua casa depois de sair do trabalho em uma casa noturna na Zona Oeste da capital paulista. O vigilante tinha acabado de descer do ônibus e andava em direção a sua casa quando foi atingido.
A declaração de óbito diz que a vítima teve traumatismo crânioencefálico após ser atingida por um objeto perfurante contundente na cabeça. No entanto, os PMs contaram na delegacia que encontraram a vítima caída no chão e inconsciente após a passagem de uma motocicleta com dois homens em alta velocidade.
Vizinhos ouviram o barulho de um tiro sendo disparado. Testemunhas relataram ao G1 que os policias perseguiam a motocicleta quando dispararam um tiro que teria atingido acidentalmente o vigilante. Na sequência, um dos policiais desesperado teria declarado que “fez besteira”, de acordo com o relato da vizinhança.
O irmão de Alex lembra que eles raramente saíam juntos para conversar e que, naquele dia, Alex tinha lhe chamado "para tomar uma cerveja".
"Eu achei estranho, ele nunca andava comigo, e fiquei animado para sair com meu irmão. Ele me avisou que estava chegando de ônibus e falei que ia buscar ele no ponto, era próximo de casa. Ele respondeu que já estava chegando e morreu perto dali. Cheguei a tempo de ver a massa encefálica dele no chão caindo por causa do tiro. Foram eles mesmo que atiraram, afirma Aparecido.
O caso
O boletim de ocorrência feito pelos PMs no 69º Distrito Policial (Teotônio Vilela) não mencionam o ferimento na cabeça da vítima. Inicialmente, o caso foi registrado como lesão corporal culposa (quando não há intenção) e fuga do local do acidente.
Por esse motivo, a família voltou na delegacia e pediu a modificação no boletim de ocorrência. Como a solicitação não foi atendida, os familiares decidiram registrar o caso no 53º DP (Parque do Carmo) como morte suspeita. Na época, a PM informou que a Corregedoria instaurou um inquérito e que acompanhava o caso. Os dois PMs envolvidos na morte permanecem detidos no Presídio Romão Gomes

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